29 de janeiro de 2026
Alacrau
29 de janeiro de 2026
Por Maria Caram
Ademar foi picado por um escorpião às duas e trinta da manhã em sua residência. Estava descalço e sem camisa e, do seu alpendre, olhava o mar. Deu mais um gole na cerveja e terminou de espremer o bicho embaixo do seu pé descalço.
Decidiu não ir para a UPA. Aquela hora estaria lotada das piores desgraças: bêbados, atropelados e atingidos pela polícia. Terminou sua cerveja e foi deitar. O pé direito ainda estava quente, mas ele ajeitou umas almofadas e deixou a perna mais alta para o sangue circular.
Às seis horas, sem poder ignorar o sol que entrava pelas persianas, acordou e se mexeu para desligar o ventilador velho e barulhento que cacarejava ao seu lado. Sentiu sede. Jogou as pernas pra fora da cama com dificuldade, esquecido das almofadas e do ardor. Pisou no chão e sentiu o veneno do bicho subir fervendo até a virilha. Segurou as bolas, com medo de que o fogo chegasse ali.
Sentou na cama derrubando toda a carga dos quadris. Não era pesado, mas tinha um corpo largo, cheio de músculos desenvolvidos no trabalho do porto e dos barcos. Sentiu que poderia morrer de sede. Tentou de novo firmar o pé, de novo a dor lhe esculhambou a perna. Abriu bem os dois olhos pequeninos, ovalados e muito verdes, as rugas rodeando os círculos em raios de sol. Bem ali, do outro lado do cômodo que era quarto, copa e cozinha, o garrafão azul pela metade. Pisou com o outro pé e se levantou de novo. Assim deu certo.
Avançou com o pé direito, só a ponta dos dedos. Ardeu só um cado, espinhas de peixe lhe entrando pela sola dos pés. Mais um passo. Mais espinhos. A boca secando mais, a garganta areando, os olhos mareados. Tentou chamar, mas lembrou que não havia mais ninguém naquele morredouro: Josélia tinha partido fazia já dois meses.
Também não tinha filhos, nem de Josélia, nem Gislene e muito menos de Ana. Avançou mais um passo, perdido em pensamentos, e pisou o pé cheio no chão. As pernas fraquejaram. O ardor atingiu a garganta seca, o grito saiu sem som. Apoiou na mesa. A perna tremia, o quadril amoleceu. Respirou fundo, olhando o garrafão a menos de cinco passos. Ouviu os vizinhos voltando da lida no mar ou saindo pros trabalhos na rua.
Com o canto do olho, viu o chapeuzinho de Josélia largado no pé da escada, lá embaixo. A primeira vez que a viu, ela usava aquele chapéu e o coração de Ademar ardeu como ardia o pé. Josélia também era pequena e venenosa. Na época, era engraçada com Tobias, o velho do bar do fim da rua. Ele era meio cego e não via que bem ali do seu lado, Josélia tava sempre com o olho comprido pra vida. De vez em quando Ademar tinha notícias que o velho Tobias deu um couro em alguém e foi levado para a DP uns dias para se acalmar. Josélia ficava cuidando do bar e da vítima, mas quando Tobias voltava, encontrava a mulher sozinha e fiel, o que o olho não vê o coração não sabe. Até que uma manhã ela gritou tão alto que nem o barulho das ondas escondeu o berro. Correu todo mundo, mas Ademar, não. Acharam Josélia aos prantos, chapéuzinho na cabeça e o Tobias já ficando roxo de morte.
Quando os cobradores vieram saber da viúva os pagamentos, ela ficou só com uma malinha, o vestido de flores verdes e o chapeuzinho. Os clientes do bar querer até quiseram ajudar, mas só ali por uma noite e Josélia não era mulher disso. Ademar havia sempre sido correto com ela, os olhinhos baixos para ela passar, e se acercou dela querendo assuntar faxina, casa de homem solteiro era aquela porcaria. Ela entrou, colocou o chapeuzinho no espaldar da única cadeira, a mala no pé da escada e já foi tirando o vestido. Só saiu dali anos depois, mais redonda, sem nenhuma humildade, com uma mala grande de couro que botou no porta-malas do carro do gerente da Lojas Freitas, onde ela começou a trabalhar em dezembro do ano anterior.
Ademar quis matar: primeiro ela, depois o gerente, depois a si. Aquietou o coração olhando o mar e deixando a casa se afogar em bagunça e sujeira. Não matou ninguém, mas ligou lá no compliance da Lojas Freitas e enviou todos os nudes que gerente e funcionária trocaram, e uns videozinhos de sacanagem que ele chorou quando viu a primeira vez, mas provaram que, além do assédio sexual por um superior, a vendedora mentia ao bater o ponto para exercer atividades pessoais durante o horário de serviço. Diferente de Tobias, Ademar não se metia em confusão. Era um homem calculado.
Tentou andar mais uma vez e a dor foi tanta, mas tanta, que ele desacreditou da sede. Levou a mãozona peluda ao pescoço e massageou, tentando entender se existia mesmo aquela vontade toda de beber água. Puxou a cadeira, sentou, e olhou de novo para a escada. Pelo sol, já eram umas quase oito. Ia ter que descer a escada para arrumar ajuda, mas naquela hora, quem taria por ali? Pensou no velho Tobias e lembrou que ele morreu de queda da escada, mas os médicos do SAMU falaram que foi o coração: primeiro parou as batidas, depois desabou pelos degraus. As casas ali eram todas trepadinhas com escadas estreitas grudadas umas nas outras. Decidiu descer sentado, largou de mão o copo d’água.
Passou o corpo da cadeira pro chão, na força dos braços. Foi se arrastando feito um cotoco até chegar no primeiro degrau. Como é que pode uma casa pequena daquela parecer uma mansão?
Desceu esfregando a bunda, as bolas e o pau ralando no chão, ele sentindo um ódio imenso do maldito escorpião tão pequeno, sentindo o prazer de ter esmagado o bicho com o pé rachado. Chegou no final da escada e rastejou até a piazinha que Ana tinha mandado colocar na entrada pra ele se lavar quando chegasse da lida. Ergueu o corpo amarronzado com os dois braços, abriu a torneira, molhou os lábios vermelhos e comidos, os braços cansados e o pescoço largo e cheio de tatuagens. Catou uma camisa que estava ali perto, cobriu o peito. Não sabia da chinela, devia ter deixado lá em cima. Olhou pro alto e lembrou que o celular ficou lá na cama também. O chapéu de Josélia rindo dele ali no pé da escada.
Pisou mais uma vez e sentiu que ia morrer. Não ia ter jeito, plena sexta-feira e ia ter que ir pra UPA. Abriu a porta de casa e espichou o olho pra rua, encarando as duas pistas de asfalto quente e mormaço da chuva da madrugada. Fez o saci e foi pulando e pulando, botando moral nos carros apressados que cortavam a avenida. Cada pulo do pé esquerdo parecia que ia derrubar o direito, nessa altura já uma pata de elefante. Um vizinho bêbado passou por ele, mijado e com a testa ferida, chamou pra farra. Ademar só lamentou. Firmou os olhinhos na entrada da UPA, logo ali do outro lado, o outro lado parecendo a China de tão longe. Chegou e subiu aquela rampinha fudida, pulando que nem saci e nenhum maqueiro pra ajudar no corre.
Empurrou a porta e puxou a perna direita até o balcão, tinha esquecido os documentos tudo, não lembrava o número do SUS, aquela mocinha ali de azul bonitinha, simpática, nunca ia se compadecer de um desgraçado que nem ele, mas compadeceu, me diga ai seu Ademar qual é seu nome completo Ademar da Rocha Guia dos Santos e quantos anos o senhor tem seu Ademar quarenta e seis anos minha filha olhe aí na minha ficha não é possível mês passado eu tava aqui toda semana foi garrafa faca, remédio e veneno pra rato todo mundo aqui já me conhece de cabo a rabo pois tá bom seu Ademar não se preocupe que vai dar certo o que foi que trouxe o senhor dessa vez foi um escorpião minha filha esse papo de novo Ademar não macho dessa vez é um escorpião de verdade que pegou aqui no meu pé e tá arrebentando até meus ovos cuida Luana chama lá o maqueiro tem que levar o homem direto pra medicação arruma ai uma laranja pra ele, chega meu povo corre que horas foi isso seu Ademar foi duas e meia da manhã tu tem certeza Ademar tenho eu sei porque é a hora que a lua começa a descer pra esconder na água.
Enquanto empurrava Ademar na cadeira de rodas, o maqueiro ia contando para a técnica de enfermagem do drama dos últimos meses. Falava como se Ademar fosse mouco, mas o homem escutava bem, enxergava bem e só não viu nem ouviu foi a safadeza da Josélia com o gerente que deixava ela em casa depois do trabalho.
Puseram ele sozinho no consultório quatro e saíram conversando da vida dos outros, Ademar fervendo de raiva porque não passou a vida inteira cuidando de si mesmo para virar fofoca de corno no corredor da UPA. Quis levantar, fez menção, mas a médica entrou na sala. Era uma médica branca: a pele era alva, a roupa não tinha uma mancha, a mão não tinha marcas ou rugas, o rosto era feito papel de arroz. Olhou a ficha dele, olhou a pulseira laranja, ele não era mais Ademar, era Emergência, gritou pela enfermeira, essa queimada de sol, o cabelo com mechas californianas e chapinha, a marca do biquíni aparecendo no canto do uniforme grande demais pro corpo franzino. Ademar teve desejo, depois teve nojo.
Receitaram para ele 2mg de lidocaína, Ademar sempre ficava atento no nome dos remédios, para infiltração local, e diclofenaco intramuscular. A enfermeira saiu atrás da médica e ele ficou sozinho na sala de procedimentos, onde foi colocado logo depois que o senhorzinho infartado saiu seguido da filha, que apesar de séria, tinha cara de problema.
Ademar tinha isso, de olhar pras pessoas e saber o que eram. Menos com as três esposas. Esposas, não, que ele nunca colocou aliança em mão de ninguém. Queria ir embora, que fosse. Queria tirar menino, que tirasse. Queria que ele fosse outra coisa, que esperasse sentada. Ele não tinha tempo para drama, nem para UPA, nem para o maldito escorpiãozinho que tava ali aperreando seu pé.
Fechou os botões da camisa e se ajeitou na cadeira, sentindo o pé arder. A ficha dele em cima da mesa, o pacote com os remédios em cima da ficha, a garganta uma duna de tão seca, a voz já bem fraquinha. Cerrou os olhos, as rugas ficando retinhas feito o sol se pondo. Não ia morrer de escorpião, não, se recusava. Devia ter puxado o veneno com a boca na hora, mas quis matar o desgraçadinho. Ouviu um forró ao longe e lembrou do filho do Bideval, que foi pra São Paulo pra fazer negócio de rap, era um menino bonzinho, vendia uns discos lá pro bar do Tobias, arrumou uma vespinha, aí desandou. Ademar sabia sempre que ele ia desandar, Ademar olhava e sabia. Era dolorido isso.
Pelo sol, esquentando a pele dele naquela sala gelada pelo ar condicionado, já ia batendo umas onze horas. Ademar tinha perdido qualquer chance de trabalho naquela sexta, ia ter que mendigar vaga nas barracas do mercado do peixe, mas não gostava dali, os azulejos, a luz, parecia uma UPA mesmo. Ninguém vinha lhe aplicar o remédio. Esqueceu da sede. Esqueceu da dor que já chegava embaixo do suvaco. Não queria mais era coisa nenhuma. Fechou o olho para cochilar só um pouquinho, ouviu a porta abrir e a filha do senhorzinho infartado entrar, pegar uma ruma de coisa, incluindo os remédios dele, e sair. Sabia que ela era problema.
Antes de dormir se lembrou que os escorpiões só andam em casal.
Outras coisas
![]()
que podem te interessar
Livro
Problema de pronúncia
Curso
Preparação de originais
Curso